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Maria Cecília Mansur

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© 2016 por ADZ COMUNICAÇÃO

Família no Retrato

May 31, 2017

 

 

Muito tempo se passou desde que aquela sala reunira pela ultima vez tantos membros da família. Os donos da casa estavam mortos. Há muitos anos.  A lembrança deles os unia. A partir da troca de reminiscências entre um e outro membro, surgira a ideia do encontro maior, da união de gerações.

- Vamos nos divertir!

E foram chegando. A família crescera. Havia agora os filhos dos primos. Outra geração. Alguns dos representantes da nova geração já adultos e prontos para a sua vez na continuação da família. E na construção da rede intrincada que vai se formando com as uniões e os agregados que se juntam e que, ao mesmo tempo, são e não são da família. Tudo num script muito conhecido. Entre abraços e risos, uma sensação de acolhimento, de identidade.

Alguém fez café. Alguns trouxeram bolo e até biscoitos.

 

- Experimenta! Veja se não lembra o bolo de cenoura que vovó fazia?

Os mais velhos guardavam lembranças da casa muito antes das reformas.

- Sabe, meu filho – dizia um dos primos ao menino de dez anos – esta varanda não era assim. Era bem diferente. E também não a chamávamos de varanda. Sempre nos referimos a esta parte da casa, como alpendre. Aqui neste canto, ficava uma lata grande com uma planta bonita. Como se chamava, Alzira?

- O quê?

- Aquela planta que crescia a partir deste canto e se alastrava por uma guia, que vovó fazia, acho que de arame... Dava umas flores brancas – cachos pequenos?

- Ah! Sim. Era uma trepadeira. Seria a flor de cera?! Era muito bonita! Você se lembra, aqui do outro lado havia um quarto pequeno. Janela de madeira. Tinha uma cama, com colchão de palha!

- Sim, claro! Lembro bem agora. A porta também era de madeira e estava sempre emperrada.

 

E riam.

 

Passearam pelos quintais! Repararam nas modificações. Lamentaram ter de reconstituir o cenário da infância quase que só com lembranças, tão intensas foram as modificações. As árvores frutíferas, a horta, a bica d’água e até o antigo curral. Reconstruídos - assim no ar – com desenhos gravados na memória...

Um misto de nostalgia e curiosidade, uma boa pitada de saudade e algo incômodo, que doía na mesma medida que os fazia rir. Por que estavam ali afinal? Para resgatar o passado? Para reavivar antigos laços? Em busca de algo que era preciso resgatar? Mas, o que se pode resgatar do passado? Mais, ainda, o que se pode resgatar coletivamente do passado?

As conversas prolongaram por noites e dias. Resgate fragmentado. As experiências individuais se encaixando tortas. Difícil quebra-cabeça de peças que não se acoplam, resistem ao contato, ao consenso de objeto único. 

 

- Não me lembrava dos lírios vermelhos, mas, é verdade, eles existiram!

- Por outro lado, de minha parte, já não me lembrava que vovô tivera um entrevero com o pároco e que, durante muitos anos, frequentara as missas dominicais em outra paróquia...

- Vocês dois ai? Lembram-se de quando a Marlene decepou o dedo no moedor de cana de vovô, que ficava ali, onde agora está aquele amontoado de pedras?

- Eu me lembro do horror que senti, isto sim!

- Mas, até que o desfecho não foi dos piores. Ela teve o dedo reconstituído. Mostra aí, Marlene, como ficou seu dedo!

E Marlene:

- Bom! Reconstituído ele ficou, mas não teve muita serventia depois daquilo. Transformou-se no dedo podre, responsável por aquele traste de marido que tive.

 

Mais risos e risos!

 

No terceiro dia começaram as repetições. Alguns já se entediavam com tamanha dose de passado. Aos poucos, ou não, os assuntos do presente se imiscuíam entre as doces recordações.

- Quem diria, Lucimara, que você, tão magra e elegante na juventude, fosse engordar tanto!

- Você quer dizer: me transformar neste ser desprezível!

- Não... não é bem assim! Que isto?!

 

E daí para as críticas às escolhas individuais foi apenas um pequeno salto. Como se atravessassem o pequeno córrego que, no passado, dera vazão a água da pequena nascente abaixo do curral.  E então, as diferenças...

Alguns se agitavam. Outros ponderavam e havia os que se calavam.

Crescia a desconfiança. Acontecimentos de lembrança pouco recomendada afloravam, devagarinho, como infiltração de água de chuva entre as frestas do telhado antigo. E, do presente, surgia instigante o contexto político, social, religioso.

Não se deram conta de que o passado fascina justamente porque é passado. Irrecuperável, impróprio ao resgate. Sobretudo, ao resgate coletivo. A vida lhes abrira os mais diversos caminhos e os separara inexoravelmente.

De repente se olham e se estranham.

Alguém clama por consenso.

- Não há consenso, outro responde. E sai batendo a porta.

Outros atônitos pedem silêncio.

Há os que falam em tolerância e respeito.

Um a um vão deixando a casa.

Alguns minutos e o último a sair apaga a luz

 

Vazia, a casa é a tradução mais fiel dos que nela se abrigaram em tempos remotos: seres diversos que perambulam sozinhos, tateando por falsas paredes e de mãos dadas com outros seres igualmente sós, inatingíveis.

As lições de tolerância e de acolhimento das fraquezas mútuas, se é que existiram, não foram suficientes para uma harmonia que transcendesse àquela do velho retrato, que pende estático da parede da sala.

 

 

Sandra Sapori -26/05/2017

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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