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Maria Cecília Mansur

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© 2016 por ADZ COMUNICAÇÃO

A Desconstrução da Norma

November 10, 2016

                  Se pensarmos nos questionamentos sofridos pela norma heterossexual, cuja história pretérita abordamos, veremos que as transformações ocorridas no mundo atual fazem com que o vocabulário sobre o sexo seja insuficiente para dar conta da complexidade contemporânea. Como procurou revelar este livro, a sexualidade não é apenas uma questão pessoal, mas é social e política.

            Durante muito tempo as pessoas chegavam a empregar o termo “sexo” e “gênero” quase como sinônimos. No entanto, sexo se refere a uma característica biológica: nasce-se homem ou mulher. Em raros casos, nasce-se com órgãos de ambos os sexos (os outrora chamados de hermafroditas e hoje de intersexos). Já a palavra gênero tem sido utilizada para se referir a uma tomada de decisão a respeito das escolhas identitárias, a de ser masculino, feminino, transgênero ou ainda outro. O termo gênero indica um papel socialmente construído e reiterado ao longo da vida, que não está dado biologicamente. Cada um – em resposta às determinações socialmente impostas – seria responsável por constituir sua “identidade”.

            A identificação pelo sexo é uma categoria biológica insuficiente para explicar os papéis sociais atribuídos ao homem e à mulher; daí a importância de se pensarem os gêneros como categorias identitárias. Assim, além de masculino e feminino, existem outras identidades de gênero. Há pessoas cujo sexo biológico discorda do gênero psíquico: são, por exemplo, as travestis e transexuais, ou transgêneros. E, ainda assim, as identidades de gênero são bem complexas. De acordo com a filósofa americana Judith Butler, “ninguém nasce com um gênero”; ele “é sempre adquirido”. Enfim, para a autora:

 

            Se o sexo e o gênero são radicalmente distintos, não decorre daí que ser de um dado sexo seja tornar-se de um dado gênero. [...] Essa formulação radical da distinção sexo/gênero sugere que os corpos sexuados podem dar ensejo a uma variedade de gêneros diferentes, e que, além disso, o gênero em si não está necessariamente restrito aos dois usuais (Judith Butler, Problemas de gênero, p. 194)

 

VESTINDO O CORPO SOCIAL

            A propósito do tema da diversidade de gêneros, veremos o que ocorreu primeiramente na roupa ou na moda.

            A ligação entre a vestimenta e o sexo é um construto histórico. Para o senso comum, porém, e até recentemente, considerava-se que ela fosse algo inerente a ambos os gêneros, de forma normativa. Havia, por exemplo, uma imposição maior no uso da calça para os homens e de vestido para as mulheres. Cores sóbrias para homens e vistosas para as mulheres. Quem não seguisse esses rígidos padrões de vestimenta (excetuando-se o Carnaval) chegava a ser ridicularizado, preso ou internado em manicômio. A padronização de cores e de tipos tornava a roupa numa espécie de uniforme que se prestava a identificar culturalmente a sexualidade.

            Com os movimentos de contracultura, especialmente a partir dos anos 1960, emergiram novas concepções e práticas de sexualidade, que vão desde as reivindicações feministas contra hábitos culturais arraigados (como o uso do soutien, por exemplo) até as novas práticas sexuais, liberadas graças a uma importante inovação da indústria farmacêutica, a pílula anticoncepcional.

            Num lento processo, os códigos de vestimenta foram se tornando mais maleáveis e novas convenções sociais foram estabelecidas, neutralizando escândalos iniciais (como foi o caso de Leila Diniz, ao ir à praia de biquini em avançado estágio de gravidez). Decerto, a ocorrência imprevista de mudança histórico-cultural provoca inicialmente dificuldade de assimilação: os atores sociais ficam chocados. Assim, por exemplo, a moda unissex, trazida pelo movimento de contracultura hippie a partir de meados da década de 1960, embaralhou os conceitos tradicionais de vestuário, ao instituir o uso de peças que seriam válidas para homens e mulheres.

            Ainda no quesito vestuário, não se trata apenas de romper com delimitações rígidas entre trajes femininos e masculinos. Cada vez mais inúmeros tipos de vestimenta estão disponíveis, também baralhando as distinções convencionais: da roupa clássica ao traje esportivo; do estilo hippie e rastafári ao descuidado, desfiado, esgarçado. Domina agora, na indústria da moda, o apelo ao personalismo, mesmo que isso implique (ou até porque implica) o exotismo, a indefinição dos gêneros: do antes repulsivo punk ao rasgado, descosturado. Isso culmina no cross dressing (vestir roupa do sexo oposto). No caso da drag queen a pessoa se traveste de mulher com exagero e excesso, o que evidencia o caráter artificial das normas de gênero.

            A moda, no entanto, estimula a ilusão de que é possível afastar-se da média, por meio de atitudes provocativas, excessivas, desagradáveis, surpreendentes ou mesmo chocantes. É assim que se reforça a crença ideológica de que cada um “escolhe” livremente seu “estilo”.  

            Para o teórico da comunicação Marshall McLuhan, a roupa é o prolongamento da pele. Com a moda unissex ou, como se diz hoje, de gênero neutro, ou andrógino, cada vez mais nos afastamos da codificação rígida da vestimenta, deixando-nos de identificar ou de nos prender ao sexo biológico do usuário. Sempre se pôde mentir na linguagem das roupas, transmitindo-se uma falsa informação, ou uma informação convencional, mas agora isso se acentuou. Há quem goste de travestir-se de forma “esquisita” para os padrões tradicionais, sentindo-se bem assim e até o fazendo por provocação. Uma pessoa pode se vestir de uma forma não identificável como masculina ou feminina, ou expressar o desejo de perder os traços físicos que a faz ser vista e tratada socialmente como homem ou mulher.

 

MULHERES POR CIMA

            Quando se fala em revolução sexual indicam-se as mudanças liberais por que a prática sexual, principalmente, passou em poucas décadas. Aqui se ressalta o que ocorreu com as mulheres, as principais autoras dessas transformações; os homens vêm sendo sobretudo espectadores desse processo de mudança.

            Ao afirmar “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, a filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), em O segundo sexo, contesta o pensamento determinista do final do século XIX que empregava a biologia para explicar a inferiorização do sexo feminino e as desigualdades sociais entre os gêneros. Para a filósofa, “ser mulher” é uma construção social e cultural e não um destino biológico que a aprisiona no papel de esposa e mãe.

            Questões como essas, que invadiram os países europeus e os Estados Unidos a partir da década de 1960, parece terem finalmente chegado ao Brasil desde a passagem para o novo milênio. Isso não significa que parcelas de nossa intelectualidade não tenham se dedicado ao tema anteriormente. Mas apenas nos últimos anos a discussão alcançou a sociedade como um todo – ou quase.

            As enormes transformações ocorridas no universo feminino fizeram com que a mulher viesse conquistando com rapidez tudo que a ela estava interditado: do casamento à vida profissional, da virgindade à liberdade sexual, e até mesmo ao desfazer o casamento, pois, nos idos dos anos 1960, a mulher brasileira desquitada era tida como cantável, seduzível e até mesmo fácil.

            Hoje vem aumentando o número de confidências femininas. Expor a vida íntima sem nada esconder, salvo alguns detalhes, é fato recente. Há algumas décadas, o máximo que uma mulher podia contar era o quanto sua vida na cama havia sido frustrante desde a noite de núpcias (muitas tiveram crises de choro) ou como era extenuante limitar-se ao papel de parir filhos um atrás do outro. Foram inúmeras as histórias de insatisfação feminina, bem como a incapacidade de tocar no assunto até mesmo entre as mulheres. Tal passividade vem sendo deixada de lado e, com isso, a mulher está se descobrindo senhora de si e detentora de uma identidade sexual que a distingue do outro. Essa atitude libertária devolve a ela a posição de sujeito também na relação sexual.

            Para a maioria dos homens, a sexualidade feminina ainda é uma incógnita. Antes, a iniciação sexual da mulher, o próprio defloramento dela, partia somente da decisão do namorado. Na maioria das vezes a mulher evitava assumir seu próprio desejo. No máximo, podia insinuá-lo, sem passar a imagem de uma profissional do sexo. A posse da virgindade era tão valiosa que um jurista desconsolado afirmou sobre o defloramento: “O réu roubou da moça sua única riqueza”.

            Contribuiu para se acreditar na frigidez de muitas mulheres o descaso com que a ciência relegou a questão: a normalidade estava em não sentir prazer. Os médicos estabeleciam íntima associação entre perturbação psíquica e distúrbios da sexualidade em muitos tipos de doença mental, sendo a histeria um dos exemplos mais expressivos neste sentido.

            Parte dos homens até hoje não se recuperou totalmente dessa novidade, ou seja, de que o desejo sexual feminino não é exceção, mas regra, como mostrou o casal de pesquisadores americanos William Masters e Virgínia Johnson. Muitas mulheres passaram a tomar iniciativa antecipando as investidas masculinas. A autonomia e a independência feminina na atualidade têm deixado alguns homens desconcertados, principalmente quando “cantados” de forma inesperada fazendo com que percam a pose. Diante de uma mulher experiente, muitos já ficam com medo de não desempenhar bem o papel.

            O aumento de liberdade das mulheres tem como consequência a intensificação dos conflitos entre os sexos. Inevitavelmente, muitos homens têm recebido as mudanças nessas relações com insegurança, frustração e temores crescentes de que sua virilidade está em xeque. Perceberam que diminuiu sua capacidade de controlar o comportamento feminino através dos velhos canais conhecidos.

            A maioria das mulheres almeja vivenciar sua sexualidade de forma livre para gozar seu corpo, aparentemente sem culpas. Querem exercer o direito de decidir sobre seu próprio destino e gozar da liberdade de ir e vir sem sofrer assédio. A vida devassa chega a ser invejada por algumas garotas que confessam, em pesquisa de revistas, terem o fetiche de por apenas um dia poderem ser “vadias”. Querem mostrar aos homens machistas que desejam se expressar como quiserem, desde o modo de se vestir até as atitudes.

            Cada vez mais vêm sendo reduzidas as fronteiras entre os gêneros sexuais e os padrões de moralidade vão se tornando mais flexíveis. Ocorreu uma ruptura do modelo de comportamento esperado do sexo feminino. Há a necessidade de ir contra as regras impostas pela sociedade, na busca por ações livres. As mulheres foram beneficiárias diretas da abertura nos costumes e estão cada vez mais radicais na defesa de seus direitos.

            O feminismo problematizou o lugar da mulher na sociedade, questionando hierarquias nas esferas pública e privada. Esse foi um grande avanço, mas, ao incorrer na reprodução daquilo mesmo que queria criticar – isto é, a dominação de um sobre o outro -, possibilitou o surgimento e a atuação de uma ala mais radical chamada de pós-feminismo que vem atuando em questões relativas à identidade de gênero.

 

FALANDO DE SEXO: KINSEY E FOUCAULT

            Em 1948, o pesquisador norte-americano Alfred Kinsey (1894-1956) publicou uma escala numérica de sexualidade humana, com os seguintes valores: zero, para a pessoa exclusivamente heterossexual; três, para os bissexuais e seis, para quem se considerasse exclusivamente homossexual. Para ele, a sexualidade humana transita nessa escala. Se estabelecermos como critério as cores branca e negra consideradas as extremidades da tabela, veremos, no entanto, não haver nitidez no intervalo entre elas; a realidade está mais próxima dos diferentes tons de cinza. Para Kinsey, a orientação sexual é um continuum:

 

"Os machos [e as fêmeas] não se dividem em dois grupos distintos: os heterossexuais e os homossexuais. O mundo não está dividido em ovelhas e carneiros. Nem todas as coisas são negras nem todas as coisas são brancas. É um princípio fundamental da taxonomia que raramente na natureza se encontram categorias nitidamente separadas. Só a mente humana inventa as categorias e tenta abrigar os fatos em compartimentos separados. O mundo vivente representa uma continuidade em todos os seus aspectos. Quanto mais depressa aprendermos esta noção, tanto mais depressa compreenderemos claramente o que é a realidade do sexo (Citado por Júlio Simões e Regina Facchini, Na trilha do arco-íris, p. 32).

 

Ao mencionar a taxonomia, ciência responsável por descrever, classificar e nomear os organismos vivos ou extintos -, Kinsey, mesmo criticando as distribuições binárias, revela sua tendência de estudar o sexo pelo viés biológico (macho/fêmea), sem levar em consideração as questões culturais de gênero (masculino/feminino). Talvez sua trajetória possa ser explicada pelo fato de ele ter sido pesquisador e professor de zoologia, antes de dedicar-se à sexualidade. No entanto, não podemos perder de vista que, na década de 1940, seus estudos contrariavam as tendências moralistas de compreender a sexualidade em padrões da normatividade e desvio."

            Posteriormente, o intelectual francês Michael Foucault (1926-1984) deu novas e decisivas contribuições para o estudo da sexualidade. Ele estudou a genealogia sexual baseando-se na formação das ciências humanas e na filosofia.

            Em toda parte, principalmente desde os anos 1990, estudos sobre gays, lésbicas e feministas, particularmente, foram influenciados pelas obras desses dois autores. Ambos desconstruíram a histórica pressão social pela heterossexualidade até então tida como normal e, que, portanto, poderia ser imposta de forma compulsória.

            Segundo a análise de Foucault, foi a partir do século XVIII que se intensificaram os discursos sobre o sexo. Encorajavam-se as pessoas a se confessar, a se manifestar, mas havia normas que estabeleciam quem deveria falar e onde se poderia falar. Para o filósofo, a sociedade não obrigou o sexo a calar-se ou a esconder-se; ao contrário, o processo de exposição a respeito das preferências sexuais se intensificou com o desenvolvimento das ciências humanas. Nos estudos de Foucault, a noção de “sexo” permitiu agrupar, “de acordo com uma unidade artificial, elementos anatômicos, funções biológicas, condutas, sensações e prazeres”.

            A proliferação dos discursos de poder convidava à enunciação de nossa sexualidade, por meio de instituições como a Igreja, a escola, a mídia, a lei, o consultório médico e um conjunto de saberes (como biologia, medicina, psicologia, psiquiatria, moral, pedagogia etc). Tais dispositivos tornaram-se peças essenciais de uma estratégia de controle do indivíduo e da sociedade.

            Ao analisar esses discursos, Foucault põe em xeque as afirmações de que sexo e escolhas sexuais sejam verdades incontestáveis. Trata-se, de fato, de construções históricas que definem normas e atitudes consideradas aceitáveis em determinado momento cultural.

         Portanto, não referir uma história da sexualidade à instância do sexo; mostrar, porém, como “o sexo” se encontra na dependência histórica da sexualidade. Não situar o sexo do lado do real e a sexualidade do lado das ideias confusas e ilusões; a sexualidade é uma figura histórica muito real, e foi ela que suscitou, como elemento especulativo necessário ao seu funcionamento, a noção de sexo (Michel Foucault, História da sexualidade 1: A vontade de saber, p. 171)

           A elaboração teórico-social tem um papel central na formação da sexualidade humana. Os estudos sobre gênero constatam que ser homem ou ser mulher é também uma construção histórica e cultural, e não uma questão meramente biológica. A sexualidade é “aprendida”, ou melhor, é construída ao longo de toda vida. A sociedade estabelece padrões entre o que é normal, desejável e saudável, e aquilo que é desviante, indesejável e, de alguma forma, patológico.

       Contrariamente aos discursos do poder biopolítico, o pensamento dos continuadores dessas ideias afirma que o indivíduo nunca está pronto ou acabado. Até mesmo em termos biológicos está havendo constantemente alterações da própria cultura sobre o corpo, que assim passa a ser também resultado do meio ambiente, da cultura e da política. Na atualidade, corpos são moldados e torneados nas academias de musculação, fazem-se transformações com tratamentos hormonais, próteses, operações plásticas, implantes etc e, por fim, nas cirurgias de transgenitalidade. Há quem discorde quando se levam ao extremo essas transformações:

             Os sociólogos e as feministas retomaram o termo “gênero”, que conhece desde então uma extensão considerável. Mas ocorreu um desvio, a ênfase foi posta no social, a tal ponto que o biológico foi esquecido e, depois, até mesmo recusado. O gênero é apresentado como uma distinção puramente social, sem fundamento biológico. Depois de uma amadurecida reflexão, acabei por compreender, ao que me parece, como se pôde chegar a uma proposição tão irracional. Só percebemos as realidades biológicas por meio das representações sociais que variam de acordo com o tempo e a cultura, proposição verdadeira. Mas as variações nas representações não impedem a existência do corpo desde sempre e a de uma diferença entre os machos e as fêmeas que pode ser designada como a “diferença sexual” (Colette Chiland, O transexualismo, p. 20).

           

DESPERTANDO GÊNEROS

            Com o advento da Aids, a partir dos anos 1980, a homossexualidade, que vinha se desfazendo do estigma de doença, foi novamente objeto de preconceitos, agora também relacionados à doença física e letal. Diante disso, surgiram novos estudos e outros olhares sobre o que vinha acontecendo; foi assim que emergiram os estudos da chamada teoria queer (pronuncia-se cuir).

            Tendo a filósofa Judith Butler como principal expoente, queer é uma teoria sobre gênero cujo estudo afirma que a orientação sexual e a identidade sexual ou de gênero dos indivíduos são o resultado de um construto social e, portanto, não devem existir papéis sexuais pré-definidos.

         O termo queer, em português, pode equivaler a esquisito, bizarro, estranho; como também a viado, bicha. Mas sua conotação em inglês é mais ofensiva, tratando-se de uma injúria que identifica o injuriado como “desviante”, guardando ainda o sentido de anormal, defeituoso, impuro. O queer tem sido usado como insulto que procura denunciar no insultado sua “esquisitice”, estreitamente ligada à sexualidade, assim como a sua detestável “inadequação” de gênero. O queer foi assim, por anos, um termo denunciador por excelência (Larissa Pelúcio, Abjeção e desejo, p. 205).

           Parte do movimento queer se pauta por um radicalismo político, já desde o nome: fazer da ofensa uma bandeira afirmativa de luta. O lema dos militantes consiste em não fazer concessões a uma sociedade que consideram preconceituosa e segregadora. Desejam seu direito ao espaço como diferentes, estranhos, com suas próprias referências culturais. Não anseiam pela “normalidade”. Não acreditam em sua existência, a não ser como arma de controle psíquico, cultural e social.

            Com a ampliação das discussões sobre sexo, gênero e identidade sexual, o termo queer passa incluir muitas modalidades de escolhas: pessoas que se movem entre dois ou mais gêneros (fluido), pessoas que se identificam com um terceiro gênero, ou, ainda, aquelas que afirmam suas múltiplas orientações sexuais.

           Muitos decidem identificar-se como gênero queer, no entanto, alguns transexuais argumentam que seus sentimentos de gênero estão profundamente consolidados e, por isso, chegam a considerá-los “inatos”. Argumentam que a teoria queer é orientada (fluida) demais para uma escolha livre oriunda de uma construção social. Muitos não se identificam com esse discurso da diferença, embora criticamente se sintam como membros integrantes da sociedade, e não vêem a necessidade de adotar a identidade queer.

 

FAZENDO ESCOLA

            Pela sua alta complexidade, a identidade de gênero e a educação sexual estão sendo motivo de discussões acaloradas na sociedade atual. Setores conservadores tentam excluir dos programas educacionais as propostas de ação educativa envolvendo tais questões. Certas alas dos movimentos feministas e gay apregoam que as diferenças comportamentais entre meninos e meninas são construções culturais que a sociedade machista lhes impõe. Esses movimentos      defendem a quase irrelevância dos dados biológicos na construção da identidade da pessoa humana.

            A educação de gênero neutro propõe em última instância, não levar em consideração o sexo da criança. Cabe aos educadores e às famílias derrubar tradições comportamentais típicas de seu sexo. Nesse sentido, meninos e meninas deveriam ser criados de forma igual, afastando-se das antigas concepções ligadas ao sexo e ao gênero das crianças, deixando-as escolher roupas, brinquedos e cores diferentes para cada uma delas.

            Segundo a filósofa Judith Butler, a constatação “é uma menina” ou “é um menino” antes mesmo de o bebê nascer dá início a uma sequência de atos que vai constituir o sexo e o gênero de uma pessoa. Isso será reiterado por várias autoridades ao longo do tempo. O reducionismo biológico e naturalista da sexualidade humana a um rígido binarismo (homem/mulher) desconsidera o papel que a repetição constante de gestos, posturas e expressões possui na configuração da sexualidade. Da menina se espera prudência, meiguice, intuição, para que, no futuro, se tornem zelosas donas de casa. Do menino se espera agressividade, voluntarismo e espírito de iniciativa para ocupar postos de comando. Quem não se encaixa nesse padrão, heterossexual e binário, é tido como esquisito, portador de uma anomalia.

            A norma hétero se faz presente na elaboração dos currículos escolares, cartilhas e livros didáticos instaurando um regime de controle e vigilância da conduta sexual, e de gênero. A escola, condicionada por outros preconceitos e discriminações, tem atuado timidamente no tocante à orientação sexual e à homofobia. Dessa forma, ela oferece poucas oportunidades para que adolescentes assumam, sem culpa ou vergonha, uma orientação sexual considerada fora da norma estabelecida. 

      Os ativistas declaram que é preciso ter uma designação clara de gênero, especialmente para crianças e jovens que não se encaixam no modelo binário e que querem poder identificar e serem reconhecidos entre seus pares.

            A necessária formação de profissionais em Educação Sexual requer a constituição de objetivos e parâmetros claros com ênfase na promoção de cultura do reconhecimento da diversidade sexual e da igualdade de gênero. Dentro e fora dos bancos escolares são frequentes episódios de intolerância com agressões físicas e morais àqueles que não seguem as normas impostas. A introdução de legislação específica sobre a identidade de gênero, também na legislação educacional, poderia defender as minorias bem como representaria um avanço em relação à proteção dos direitos humanos – elementos fundamentais para o processo de construção de uma cidadania participativa.

        Mas, nessa luta, dois segmentos contrários a ela vêm se posicionando na sociedade. Trata-se de grupos conservadores e de setores religiosos, que argumentam sobre o risco de confundir as crianças acerca de sua sexualidade, o que traria consequências imprevisíveis, tanto para a vida pessoal quanto para a vida social, pois, segundo o argumento deles, as crianças não teriam, em sua idade, condição crítica para analisar uma questão complexa. Outra acusação contra as lutas identitárias consiste em afirmar que os militantes desses grupos de pressão não pretendem incluir a discussão da identidade de gênero nas escolas, mas, sim, impô-la.

            Mesmo com esses desafios para educar nos dias de hoje, houve, no entanto, significativos avanços no combate à homofobia e a outras manifestações de repulsa ao que não se enquadra nos padrões ainda considerados “normais”, bem como no combate à naturalização da desigualdade de gênero.

 

VIVER SEM ENTRAVES

            No momento atual, estamos vivendo a flexibilidade das relações amorosas, com a constituição de compromissos maleáveis. Tais comportamentos e relações constituem parte do que caracteriza a sociedade atual, em que, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, tudo é temporário, e, como os líquidos, nada é capaz de manter uma forma estável. Tudo muda antes que haja tempo para sua solidificação, para a fixação de raízes. Os acontecimentos tendem a se manifestar em rápido fluxo, volátil, flexível. Antes, sexo casual era conduta exclusiva dos homens; agora, é praticado de maneira muito mais aberta pelas mulheres. Anteriormente, esse comportamento estava restrito a grupos alternativos; hoje atravessa outros segmentos sociais.

            A experimentação sexual pode ter outros significados ou aplicações em contextos culturais distintos, como vem acontecendo com uma nova geração de jovens. Cresce o número de pessoas que não dá importância à orientação sexual das demais e muitos concordam que se deve explorar mais a própria sexualidade. Tornou-se relativamente comum que adolescentes tornem públicas suas escolhas e declaram terem tidos relações com pessoas de ambos os sexos.

            Como vimos, as lutas feministas, a revolução sexual, as transformações econômicas e tecnológicas foram questionando certas convenções que historicamente haviam sidos construídas por nós. Embora mais visíveis nos meios intelectuais do que nos setores populares, os jovens combatentes, em número cada vez maior, discutem e problematizam os padrões de família, de monogamia, de escolhas sexuais, e propõem a legitimidade de todas as formas de experimentação sexual possíveis, recusando a heteronormatividade.

            Cabe lembrar, no entanto, que nos setores privilegiados da sociedade existem mais possibilidades de maior exploração do ambiente de luxúria. Para a plenitude do prazer são necessários vários pré-requisitos: ter boa saúde, dispor de um lugar confortável e usufruir de tempo livre, ou melhor, ócio, e, especialmente, conviver em um ambiente que produza e legitime fantasias, de modo a se desfazer de arraigados valores morais e religiosos que tolhem o prazer.

            Esses são deleites desfrutados mais pela elite erótica do país, embora outros segmentos sociais venham se dando conta do direito ao prazer.

 

Paulo Sérgio do Carmo  é escritor e professor universitário, formado em Sociologia pela fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e mestre em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Publicou oito livros, entre os quais, "Entre a luxúria e o pudor: A História do Sexo no Brasil".

 

 

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