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Maria Cecília Mansur

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© 2016 por ADZ COMUNICAÇÃO

Querelas de Afrodite

September 14, 2016

Visto-me nua. Existo despida de tudo, demoro no desconforto da origem. Quando o jorro do gozo não encontrou mais que espumas, descobri em meu corpo a mulher. Não sabia-me bela, apenas crua, livre de convicções e ideias. Não atinei juízos nem considerei malquerenças. Cedi ao mistério do erótico, ruminei inédita os conflitos do sexo, brinquei de querer seduzir. Andei antes a vida de todas e ventei meus lugares. Inventei a carcaça do belo nas imaginações peregrinas. Partilho a cama do encanto, encontro a potência obsessiva pela ânsia de mim. Ofereço meu corpo à volúpia e conduzo o prazer. Quero e desquero, por leviandade curiosa, por estranho poder. Não me reconheço criatura, apenas mulher, parida abendiçoada na dor. Guardo o desejo de todos, tento o equilibro de ter.

 

Fantasio-me de nudências alheias. Perambulo entre a paixão e o amor, destaco os vassalos da vida do dono da flor. Danço em sensações ofegantes, entre a explosão de orgasmos, o tesão vadiante, o concerto de preces a instigar dissonantes. Sou levada a prazeres intensos, trilham-me línguas por contornos de corpo, tocam-me em intensidades namoradas. Meus desejos aprenderam veredas cativantes, subjugo o gozo enquanto transbordo a excitação em caprichos, à mercê desvendada. Meto-me nas contraditas do mito. Confundo querer com amar, enredo disputas ardilosas e perco-me nesta esparrela sem pontas. Não sou mais que a faísca do desencontro nesta mania de ardor. Debato-me em dúvidas do abismo, sou o céu sem terra, a noite sozinha, o susto de amar, a disputa do amor. Sou a mulher aturdida, baralhada de contrários e afins, a ansiedade carpida, o ciúme escondido nas querenças de mim. Não me desculpo.

 

Hoje te enxergo em alegria, sem os ferrolhos de me esperar. Eu mesma te grudei nesta teia feita de me trançar. Brinquei na mania de rodopiar sua vontade em volta de mim, de trazer seu tino junto do meu. Anistiado, te vejo nas mesmas ondas da gênese, quando eu mesma era um flanar de graças gratuitas, a iminência eterna do amor. Não sejam arrependimentos as dores contidas de nos perder. Nem ódio seja a surpresa das alegrias que agora é. Fui a mulher que sabia, fui o medo de ter, o desastre romântico que deveria inverter. Se repito o caminho emboscado que eu mesma trilhei, a origem sem pares que foi meu lugar, não faço mais que cumprir o desígnio de me aprisionar, de continuar a lida de descomungar.

 Salssisne Santos, em querelas de Afrodite.

Ilustração: Clara Meyer Cabral

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