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Maria Cecília Mansur

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© 2016 por ADZ COMUNICAÇÃO

Histórias Absorventes

Um mergulho no universo feminino.

 

O documentário Histórias Absorventes pretende explorar o limite entre ficção e realidade. O filme em média- metragem pretende criar uma narrativa visual que vislumbra capturar fragmentos da essência das mulheres, uma travessia pelo labirinto de suas mentes e corpos, combinando registro documental e encenação. A convivência com estas pessoas, futuras personagens do filme, e a forma alegre, triste, divertida ou saudável como elas vivem a experiência de viver em uma sociedade machista, inspiraram a criação de um documentário poético que invente e registre artisticamente suas experiências.

O filme Histórias Absorventes deverá se valer de elementos da ficção e de uma liberdade não- realista na criação do espaço sonoro. A montagem buscará absorver elementos da performance Gostôsa, visando o contraste entre a representação ficcional de uma jovem mulher dilacerada por sua própria relação com o corpo, a sexualidade, a opressão masculina, a feminilidade e as histórias de mulheres que lutam contra o machismo e sua extensão em variados domínios da vida, reinventando a si mesmas contra os estereótipos. Criaremos histórias fictícias, a serem narradas como depoimentos pessoais, a partir de algumas questões que iremos levantar, como sexualidade, violência, desejo, estética, a perpassar todo o documentário e performance. Estas deverão conviver com depoimentos reais e trechos de entrevista mais discursivos a respeito do tema. A ideia é mostrar a experiência de ser mulher e a participação de mulheres na luta pelos direitos femininos. Mais do que borrar a fronteira entre ficção e realidade, Histórias Absorventes pretende subverter “a partir de dentro”, ao expor o que há de ficção no que chamamos de realidade e o que há de realidade na mais desvairada fabulação.

O documentário dialoga, portanto, com toda uma leva de filmes e documentários que abordaram a temática do universo feminino. Filmes que são referências históricas no gênero, como o fundamental Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho (2007). Neste filme, o documentarista mistura realidade e dramaturgia, onde os personagens reais falam da sua própria vida, depois estas personagens se tornam modelos a desafiar atrizes e por fim, as atrizes interpretam as personagens. O ritmo reflexivo da narrativa e o recurso da montagem são alguns dos aspectos que nos inspiram neste filme-referência, e que acabam por criar a identificação visual entre espectador/personagens, pouco a pouco, pela decupagem, e fundamentalmente através da ação da fala (e da emoção com que agem) e não pelas suas características psicológicas. Nesse sentido, obras de várias partes do mundo e, em sua maioria, posteriores às décadas de 1960 e 1970, períodos fundamentais para a revolução sexual e também para a compreensão do universo feminino hoje em dia. Além do filme de Coutinho, outros trabalhos audiovisuais serão referências para a proposta, como Elena (2012) e Olmo e a Gaivota (2015), ambos da cineasta Petra Costa.

O que se pretende em Histórias Absorventes é mostrar o conjunto de mulheres lutadoras refletindo sobre temas caros, ações que se processam através do corpo coletivo, filmado em conjunto e particularizado. Por estas características o filme naturalmente traz referências e influências também da literatura – como “O erotismo”, de Georges Bataille (1987), “O amante”, de Marguerite Duras (1984), “ O caderno rosa de Lori Lamby”, de Hilda Hilst (1992), “Uma história do corpo na idade média ”, de Jacques Le Goff e Nicolas Truong (2006), “Fran” do livro “Eles eram muitos cavalos”, de Luiz Ruffato (2013), a antologia “Pretextos de mulheres negras”, várias autoras (2013), “O semelhante”, de Elisa Lucinda (1995). Sensibilidade, luta, coragem, empoderamento. São algumas das palavras que se encontram estampadas nos corpos de mulheres de diferentes contextos, gerações e vivências no projeto que se propõe a expressar, através do audiovisual, o que o feminismo representa na vida das mulheres.

As personagens escolhidas são todas participantes e integrantes de coletivos feministas, movimentos sociais e de direitos femininos. As convidadas falarão de experiências, pessoais ou não (o espectador não poderá identificar essa diferença, conferindo mais liberdade aos relatos), ligadas a temas de suas respectivas áreas (trabalho, arte, sexualidade, violência, cotidiano entre outros).

A fotografia do filme buscará revelar a individualidade do corpo de diversas mulheres, como que buscando traços das experiências de vida, de distintos domínios do cotidiano e dos processos históricos em imagens de detalhes corporais. A ideia é registrar elementos do universo imagético das mulheres reais, em toda a complexidade do ser feminino. O corpo como um repositório de vivências de violência, amor, opressão, trabalho, erotismo, liberdade. As palavras como instrumento de luta, de elaboração da experiência e de construção de uma outra realidade.

Um aspecto fundamental no filme é a estética dos grafitos de banheiro que ecoam nos azulejos dos banheiros públicos e revelam as contradições entre o público e o privado, o dito e o não dito, a intimidade e a estrutura social, o preconceito e o questionamento. A utilização desse elemento estético visa expor estas contradições sociais, cuja compreensão é parte da perspectiva de empoderamento feminino, além de trazer à tona temas relativos à mulher na contemporaneidade.

Nesse sentido, há vários exemplos de imagens de grafitos que tratam da questão do assédio às mulheres, da violência sexual. Há, por exemplo, os que tratam da ideia de que a união entre as mulheres as torna fortes, os que se referem ao corpo feminino. Além dessa questão da autonomia do corpo da mulher, outro aspecto abordado em alguns grafitos é o da integridade do corpo feminino.

 

O nosso principal dispositivo é a palavra como foco da narrativa, essencialmente as falas dos sujeitos da ação. Estabelecendo uma aproximação entre realizadores e sujeitos, numa correlação de respeito mútuo, para que essa fala seja captada nos momentos de trabalho e também dentro do ambiente informal e cultural destas mulheres, a equipe deverá conviver, de forma paciente e silenciosa, no dia a dia. Ao investigar esse universo, logo descobrimos que o documentário buscará transcender uma relação compartilhada de conhecimento. Definir parâmetros estéticos de tratamento do objeto não deve aqui significar uma regra rígida e não permeável à espontaneidade que possa surgir das diversas interações possíveis entre personagens e câmera num filme documentário, mas há aqui a tentativa de construção de um olhar poético sobre esse universo.

O filme pretende incentivar e criar situações de ação inspiradas e pinçadas do universo das personagens e encadeadas pela montagem para criação de uma narrativa documental. Portanto, parte importante das cenas será devidamente planejada, previamente decupada, e realizada especificamente para a feitura do filme. Elementos da ficção serão incluídos no documentário, uma série de depoimentos “fictícios” repletos de realidade.

O que é dito expressa aquele momento e as diversas maneiras pelas quais os sujeitos deste filme passam a se apropriar dos mecanismos da representação. O filme olha para uma possível dimensão da história que é cotidiana, das pessoas que estão na “massa”, que se dissolvem nela.

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